Lumiar: uma escola inovadora

Antes de ser uma escola, com prédio, salas, móveis, computadores, quintal, árvores, casa na árvore, a Lumiar era um conceito: uma visão de uma escola diferente, inovadora, democrática.

Quem concebeu a Lumiar estava convencido, desde o início, de que uma escola não precisa parecer uma fábrica, ou, pior, uma prisão: um lugar sério, até mesmo triste, em que crianças uniformizadas e arregimentadas praticam, contra a vontade, o dever difícil, e até doloroso, de aprender.

Quem a concebeu sabia que, quando estão fora da escola, crianças são criaturas ativas, irrequietas, curiosas, perguntadeiras, mexedeiras, fuçadeiras – e isso porque literalmente gostam de aprender. Elas querem entender como as coisas são feitas ou funcionam, e não hesitam, por vezes, em desmontar brinquedos (ou, às vezes, objetos que estão longe de ser brinquedos…) simplesmente para entender como eles foram construídos ou como eles operam.

E sabia que embora crianças nascem bastante ignorantezinhas, elas já nascem sabendo como aprender… Na realidade, crianças são seres que parecem ter sido programados para aprender. Muito cedo, e sem que sejam ensinadas, aprendem a reconhecer a face e a voz da mãe, do pai, dos irmãos, dos mais próximos. Saúdam os familiares e conhecidos em geral com um sorriso – e, quanto aos estranhos, elas, bem, os estranham… Logo aprendem, de novo sem serem ensinadas, a reconhecer sons e a perceber que determinados sons têm significados, começando, assim, a se enveredar pelo mundo maravilhoso e fascinante da linguagem. Em seguida aprendem a se sentar, depois a se sustentar nas próprias pernas, depois a se equilibrar sobre elas. Mais ou menos ao mesmo tempo aprendem a falar e a andar – de forma meio rudimentar, a princípio, mas que é rapidamente aperfeiçoada. Em pouco tempo estão correndo, saltando, subindo em móveis e escadas – e falando quase como gente grande. Depois aprendem a dançar, não raro de forma natural e graciosa. Ao mesmo tempo aprendem a cantar as palavras de cantigas infantis, a seguir sua melodia, a manter o ritmo da música. E aprendem tudo isso sem dificuldade e com enorme prazer – não porque são obrigadas ou ensinadas, e não de forma penosa e dolorida. Quem afirma que, antes de aprender, uma criança precisa aprender a aprender, e imagina que ela possa aprender a aprender em decorrência do ensino de terceiros, não deve jamais ter prestado atenção de perto ao desenvolvimento físico, mental, e social de uma criança.

As perguntas que quem concebeu a Lumiar fez foram: Por que não construir uma escola que funcione como alavanca dessa enorme capacidade de aprender que é natural às crianças? Por que não construir uma escola que respeite e promova a curiosidade inata da criança, seus interesses e talentos naturais, sua forma preferida de aprender e o seu ritmo próprio de aprendizagem? Por que não construir uma escola em que aprender seja tão prazeroso quanto o é fora da escola, mesmo quando se aprendem coisas difíceis, que exigem grande esforço e enorme concentração?

Críticos da escola tradicional há muitos – alguns bastante famosos. E suas críticas vêm sendo feitas há bem mais de um século. Vide o artigo “Críticas à Escola Tradicional”, apresentado a seguir, aqui neste blog/site. E muitos têm proposto escolas diferentes: anarquistas, libertárias, progressistas, construtivistas… No entanto, a maior parte dessas propostas acaba descambando ou para a Cila [Scylla] de uma “educação negativa”, “laissez faire”, à la Rousseau, em que o papel da escola como ambiente de aprendizagem se desvanece, ou, então, para a Caribdis [Charybdis] de um ambiente de aprendizagem totalmente estruturado, não muito diferente daquele da tradicional, em que não se respeitam os interesses, os talentos naturais, e a liberdade de aprender da criança.

Quem concebeu a Lumiar pretendeu, ousadamente, que ela navegasse entre essa Cila e essa Caribdis. E, acredito, a escola vem conseguindo corresponder a essa expectativa. A Lumiar é uma escola verdadeiramente inovadora, democrática, que respeita a individualidade e a liberdade de aprender dos alunos. Mas ela não é uma escola que abdica de sua responsabilidade na aprendizagem de seus alunos, e, por conseguinte, não é anárquica, libertária, “laissez faire”: ela tem uma proposta pedagógica clara, que abrange currículo, metodologia e avaliação, além de, naturalmente, a forma de gestão — democrática — da escola.

Neste blog/site estarei procurando explicar a Lumiar para quem não está satisfeito com o que outras escolas estão oferecendo. A Lumiar não é uma escola para todo mundo: ela é uma escola para quem está insatisfeito com a escola tradicional e com escolas alternativas que carecem de uma proposta pedagógica coerente e eficaz. Para que ela alcance seus objetivos é necessário que os pais que confiarem a ela parte da educação dos seus filhos acreditem em sua proposta – e acreditem que essa proposta não é utópica, mas, ao contrário, que é exeqüível e que funciona, contribuindo, assim, para o desenvolvimento de seus filhos como pessoas conscientes, críticas e responsáveis, cidadãos atuantes e participativos, profissionais competentes e bem-sucedidos, sem jamais se esquecerem de que aprender é o destino contínuo e permanente do ser humano – que nasce ignorante, incompetente, dependente, mas com uma enorme capacidade de aprender, e tem de, aprendendo, tornar-se um adulto que conhece a realidade na qual está inserido, que é livre e autônomo para definir o seu projeto de vida e que possui as competências necessárias para transformar esse projeto de vida em realidade, ou seja, em vida vivida.

Mas a Lumiar não exige fé cega de quem a ela confiar seus filhos: ela espera que eles se interessem por conhecer a proposta pedagógica da escola e a sua prática pedagógica cotidiana. A proposta pedagógica será exposta aqui, aos poucos, em pedaços… A prática pedagógica está na escola, para quem quiser ver: tanto na escola original, na Bela Cintra, em São Paulo, como no Lageado, no Habitat dos Mellos, em Campos do Jordão. Visite o site da escola em http://www.lumiar.org.br. Este blog/site não é o site oficial da escola: ele está sendo desenvolvido como minha iniciativa pessoal.

E quem sou eu?

Sou Eduardo Chaves, professor aposentado de Filosofia da Educação e de Filosofia Política da UNICAMP. Liberal convicto, estive envolvido com a Lumiar, bem no começo, quando a visão estava sendo detalhada, e estou envolvido novamente, agora como membro do Instituto Lumiar, o braço da Fundação SEMCO (que mantém a escola) responsável por detalhar o ideário / referencial teórico da Lumiar e por cuidar que o ideário e a prática pedagógica caminhem de mãos dadas, e no mesmo passo. Quem desejar, pode me escrever no e-mail eduardo@lumiar.net ou no e-mail eduardo@chaves.com.br).

[ET: Em Janeiro de 2007 a natureza inovadora da Lumiar foi reconhecida pela Microsoft: a escola foi escolhida como uma das doze escolas inovadoras no mundo pelo programa Escolas Inovadoras, parte integrante da iniciativa global da Microsoft “Parceiros na Aprendizagem”.]

Em Salto, 20 de Setembro de 2007

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